Cinco grandes lendas sobre preços de passagens aéreas

Comprar passagens aéreas de madrugada? Deixar a aba anônima do navegador para procurar bilhetes? Esses e outros mitos esclarecidos


Encontrar e comprar passagens aéreas baratas se tornou, com o aumento de companhias e de trechos atendidos, um dos principais objetivos dos consumidores e turistas. A busca pela economia na hora de viajar mobilizou inclusive as agências de viagens online, que investem altos valores no aperfeiçoamento de seus sistemas de rastreamento e em ferramentas que ajudem seus clientes a encontrar os voos mais em conta.

Segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o número de passageiros transportados em território brasileiro aumentou cerca de 37% entre 2010 e 2015. Se naquele primeiro ano foram registrados aproximadamente 70 milhões de passageiros, o número foi para 96 milhões meia década depois.

Os preços das passagens se mantiveram estáveis nos últimos anos, segundo o marketing manager do site ViajaNet, Gustavo Mariotto, porque o preço do petróleo, a taxa de câmbio e a demanda incentivaram as companhias a vender tíquetes com valores mais baixos.

No entanto, há muitos boatos sobre os preços das passagens, como os melhores dias para comprar ou os lugares que podem ser escolhidos dentro da aeronave. Tentamos desvendar alguns deles:

Comprar uma passagem aérea o mais cedo possível

Muitas décadas atrás, quando os valores das passagens eram fixados manualmente pelas companhias aéreas nos balcões dos aeroportos, de fato fazia sentido comprar com muita antecedência: vender bilhetes antes garantia o número de assentos ocupados nos aviões que viajariam meses depois e, com isso, as empresas também ganhavam.

Hoje, com o advento dos sistemas ultratecnológicos de fixação de preços, os prazos não são os mesmos. De acordo com Paulo Rezende, diretor da Amadeus na América Latina, empresa estadunidense de softwares para agências de viagens, o período ideal de compra é de 60 dias antes de uma viagem internacional e de 40 dias no caso de um voo interno.

A explicação para esses intervalos é que agora os preços se ajustam aos cronogramas das companhias aéreas e aos períodos usuais de compra dos clientes, e não mais aos assentos ocupados.

Assim, comprar uma passagem para Paris seis meses antes, por exemplo, pode ser mais caro do que adquiri-la faltando apenas 60 dias, porque com tanto tempo de antecedência não há ninguém procurando voos para esse destino - e às vezes as empresas sequer estão programando esses voos. A Azul chegou a admitir esse fato recentemente.

As companhias aéreas alteram os preços segundo a demanda do mercado

A diminuição da intervenção humana nos preços modificou completamente a lógica do mercado, que hoje funciona como se fosse uma bolsa de valores. Antes, os gerentes das companhias aéreas tinham liberdade para criar promoções em dias ou para destinos específicos em busca de mais lucro, e o faziam nos guichês dos aeroportos, fixando cartazes à mão - hoje esse cargo nem existe mais.

"O sistema agora se adapta em tempo real", explicou Patrick Surry, cientista de um dos aplicativos de viagens que funcionam nos Estados Unidos. "Os preços vão se adequando minuto a minuto à oferta e à demanda", continuou em entrevista ao jornal Boston Globe. Segundo ele, os gerentes costumavam colocar mais promoções às terças e quartas-feiras, quando a demanda era menor e os assentos sobravam nas aeronaves, mas hoje é uma imensa rede de computadores que organiza os lugares.

Portanto, quando há uma promoção abrupta na internet, ela provavelmente foi possível por uma permissão do "sistema", não de uma decisão humana. As companhias aéreas fazem milhares de ajustes nos preços dos bilhetes em um único dia. Assim, sempre há tarifas novas em vigor, de forma que não existe mágica quanto ao dia em que ela é comprada.

Pesquisar preços em janelas anônimas impede o aumento dos preços em buscas futuras

Não há como fugir: as companhias aéreas conseguem acessar mesmo os dados de janelas anônimas. No entanto, as empresas alegam que não usam essas informações para aumentar os custos, mas para estabelecer uma relação contínua com seus clientes. De acordo com Rezende, todas as informações coletadas nas abas dos navegadores servem apenas para ajudar os usuários no ato da procura ou da compra

"O objetivo é oferecer o melhor voo. Por exemplo: se um casal vai viajar com seus filhos pequenos e a agência e a companhia aérea têm conhecimento disso, não vão oferecer um voo com escala de seis horas ou com mudança de aeroporto", afirma ele. "Os provedores de serviço desejam conhecer seus clientes", completa.

Gustavo Mariotto também ajuda a esclarecer esse mito. "Os cookies do nosso buscador não têm como influenciar os preços das passagens porque, ainda que você acesse o site para comprar uma passagem, a sessão é sempre anônima para nós", diz.

Escolher voos em agências de viagens online e comprar nos sites da companhias aéreas

Segundo Mariotto, da ViajaNet, não há diferença entre comprar uma passagem em um buscador, como a agência que dirige, ou na página da companhia aérea. Ao contrário: existem situações em que as agências possuem preços mais em conta do que as próprias empresas. Isso acontece porque, em alguns casos, as agências adquirem "bloqueios" de lugares das companhias aéreas para revendê-los com exclusividade em seus sites.

Assim, não adianta visitar o site da empresa, porque os assentos estarão reservados justamente para quem estiver buscando um bilhete nos buscadores. Esse é o motivo também pelo qual é possível encontrar passagens sobrando nos buscadores, como o ViajaNet, e esgotadas nas companhias aéreas. "Elas já foram compradas por nós", explica Mariotto.

Uma das vantagens desse processo é que as agências oferecem mais comodidade aos clientes na resolução de problemas com os tíquetes, algo que, no caso das companhias aéreas, pode ser difícil.

Comprar passagens aéreas apenas durante a madrugada

A clássica lenda das passagens aéreas: a de que é possível encontrar voos baratos ou grandes descontos durante as madrugadas. Muita gente acredita nisso ainda hoje, passando horas da noite atualizando as páginas dos buscadores atrás de tíquetes surpreendentemente em conta. No entanto, eles não estão de todo equivocados: a questão é controversa, inclusive entre os profissionais das áreas de turismo ou de dados.

Paulo Rezende, diretor da Amadeus, uma empresa especializada em oferecer tecnologia de sistemas para as companhias aéreas, afirma que, ao contrário do que parece, não se trata de um mito. "Muitas empresas atualizam os dados de ofertas nos horários de menor movimento comercial, que demandam menos processamento nos seus sistemas informatizados", explica. Assim, os bilhetes mais baratos podem ser encontrados no momento em que eles são postos à venda.

Recentemente, o jornal britânico Telegraph publicou uma reportagem mostrando que, no caso da Inglaterra, as companhias aéreas realmente colocam preços mais baixos nos sábados para desincentivar viajantes de negócios, que tendem a pagar preços mais altos porque não têm opção. Assim, quem está procurando viajar a lazer pode encontrar tarifas mais baixas nesses horários.

Já a turismóloga Camila Oliveira discorda. Segundo ela, as passagens oscilam de valor apenas conforme a lotação do voo, independentemente do horário em que os bilhetes são comprados. Ou seja: se o cliente acessar uma agência de viagens à noite e encontrar uma passagem barata, possivelmente é porque o voo em si está mais em conta. A única relação entre bons preços e a madrugada é que algumas promoções ocorrem nesse horário.

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