Cinco canções alternativas sobre São Paulo

Toda metrópole tem como característica a união e a expressão de diferentes culturas, mas poucas são as cidades em que diferentes ritmos se propagam como São Paulo


Uma das características mais marcantes de São Paulo é o volume de expressões culturais que a cidade é capaz de reunir. E, como a arte imita a vida e a vida imita a arte, ao servir de palco para tantos músicos, a Terra da Garoa também foi homenageada em diversas composições de paulistas ou paulistanos.

Algumas dessas canções ganharam o país e são parte dos pacotes de viagens turísticos vendidos para a metrópole hoje -- como é o caso de Sampa, de Caetano Veloso --, mas a convivência cotidiana de diversas tribos e a exclusão social serviram de mola propulsora para a criação de uma cena independente que tem seu próprio espaço. Há uma diversidade incrível de expressões artísticas e, falando sobre música, as fases da cena independente já teve os negros que não podiam fazer samba, o movimento da vanguarda paulistana, a atitude "pé na porta" do punk rock, além de todo o movimento hip-hop e a espiritualidade da cultura reggae.

Em homenagem ao cenário independente, selecionamos cinco canções alternativas que falam sobre a cidade de São Paulo:

Geraldo Filme Tradição

Clássica das rodas de samba da cidade, Tradição é uma das composições mais famosas de um dos maiores sambistas da história da capital, Geraldo Filme (1928-1995). O cantor, compositor e militante negro paulista é uma das principais referências que desafiam a frase de Vinicius de Moraes (1913-1980), que chamou São Paulo de "túmulo do samba".

Geraldo viveu a repressão ao samba de raízes africanas, e o espírito combativo é característica comum de suas canções, assim como a lírica sofisticada e o ritmo típico dos batuques do Sudeste. Frequentador da festa de Bom Jesus de Pirapora, convivia com a repressão aos negros, que desenvolveram ritmos próprios pois não podiam integrar a celebração de brancos. Além disso, tem seu nome atrelado às escolas de samba "Unidos do Peruche" e "Vai-Vai" pela enorme quantidade de clássicos que compôs para as duas.

Itamar Assumpção  Sampa Midnight

Nascido em setembro de 1949, Itamar Assumpção foi um dos mais icônicos compositores paulistanos de todos os tempos e nunca poupava esforços ao homenagear a sua terra em suas letras. Sua morte em 2013 foi um acontecimento deveras doloroso, porém, sua música segue viva e sua imagem também. Sampa Midnight foi gravada no álbum de mesmo nome, lançado no ano de 1986, e apresenta uma das obras de maior expressão do músico. Entre as belezas ressaltadas pelos críticos está uma questão social da cidade que sobressai aos ouvidos de qualquer ouvinte. Ainda no caso da música, há uma análise social do underground paulistano com a citação de lugares como o Trianon e a Consolação.

Inocentes Pânico em SP

Em 1981, as bandas punks Restos de Nada e Condutores de Cadáver se uniram para dar vida a um dos grupos mais importantes do punk rock e do underground nacional. Os Inocentes, ao lado de Cólera e Olho Seco, foram alguns dos precursores do movimento no Brasil, tendo, inclusive, participado do primeiro registro desse gênero no país, chamado "Grito Suburbano", de 1982.

Os músicos todos tinham influência de bandas estrangeiras como Buzzcocks, Ramones e New York Dolls, e trouxeram o movimento para solo nacional com uma atitude forte, de "pé na porta". Levantavam bandeiras antifascistas e foram alguns dos principais agentes que ajudaram na propagação do que é hoje conhecido como "pixo", por ser a forma como divulgavam seus shows por anos. Tipicamente paulistano.

Criolo Doum

Mesmo compositor de Não Existe Amor em SP, Criolo apresenta mais uma trilha sonora que explora características marcantes da capital paulista, além de dialogar de forma fantástica com o debate levantado pelo documentário Cidade Cinza, do qual é a trilha sonora.

A música aborda a arte urbana paulistana, a relação entre a repressão e a sociedade, levando em conta diversas personagens. Além disso, a letra faz referências muito singelas ao filme -- ao citar Cosme e Damião se pensa nos grafiteiros conhecidos como OsGemeos, existem vários termos próprios do graffiti, além de referências à Kombi que apaga as artes, além de um dedo na ferida da união entre autoridades do governo e da Igreja contra as expressões da população periférica.

Amanajé Sound System Brooklin

Nome de respaldo na nova geração do reggae nacional, o Amanajé Sound System é uma banda da zona sul de São Paulo com quatro álbuns lançados. Formado em 2010, o grupo representa muito de uma nova geração do ritmo jamaicano, presente no mundo inteiro com nomes como Damian Marley e Chronixx, que carrega elementos do rap e do dancehall.

Presente no álbum Akytafaya, de 2014, a faixa Brooklin é uma clara referência a um dos maiores ícones do rap nacional, Sabotage, e também à zona sul da cidade. O grupo é alinhado com a cultura de "sound systems", sistemas de som montados na rua que remetem aos primeiros momentos de articulação do hip-hop, em que se armavam paredões de caixas de som na rua e um agitador pegava o microfone para sacudir o público.

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