Com criatividade e disciplina, ginastas recriam rotina e permanecem focados em seus objetivos

Ginastas contam o que estão fazendo em tempos de covid-19


Não é à toa que o mercado de palestras está escancarado há muitos anos a atletas, ex-atletas e treinadores. Acostumados desde a infância ao conceito de disciplina, o esportista é um ser adaptável por definição. Uma única frase do maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima é suficiente para exprimir a facilidade que essa categoria de profissionais apresenta para fazer, refazer planos - e segui-los: "Aprendi desde menino que tudo na vida a gente consegue com luta e dignidade: correr com as pernas, aguentar com o coração, vencer com a cabeça."

Cada um a sua maneira, todos os ginastas que ouvimos bolaram estratégias para conservar a força física, fortalecer a mental, cultivar hobbies que ampliam o repertório cultural, solidificar laços familiares e de amizade e até desenvolver habilidades desconhecidas. Caio Souza foi além: observando o trabalho da mãe, que costura e passou a confeccionar máscaras de proteção respiratória, tornou-se ele próprio um fabricante desse material fundamental no combate ao covid-19. "Minha mãe está fazendo máscaras para vender. Desenvolvi com ela a ideia de confeccionar para doação às pessoas que mais necessitam. Não faço esse trabalho sozinho. Minha família inteira está ajudando, porque me propus a fazer muitas unidades, de forma a ajudar o máximo de gente possível. Doei cem máscaras para o Hospital São João Batista. Fiquei muito feliz por poder contribuir. Se precisar, vou fazer outras cem, milhares de máscaras para ajudar todo mundo que puder".

Caio Souza - Ginástica ArtísticaCaio Souza - Ginástica Artística (Foto : Ricardo Bufolin/CBG)

Se aprenderam há anos a condicionar os músculos para executar séries complicadas, o trabalho mental não fica atrás. Beneficiários do amparo criado pela evolução da psicologia esportiva, medalhistas olímpicos do quilate de Arthur Zanetti e Arthur Nory obviamente têm seus receios num contexto de incerteza para toda a espécie humana, mas têm suas ferramentas para enfrentar as adversidades. "Continuo fazendo o treino físico em casa, mas dou bastante ênfase ao treino mental. Foco bastante nisso não só para controlar a ansiedade, como também para dar continuidade à atividade de visualização dos movimentos da série. Dessa forma, o corpo entende que está fazendo aquele movimento, o cérebro reproduz o movimento no plano mental. Isso ajuda a reduzir a perda técnica", explica Zanetti, campeão olímpico em 2012 e vice quatro anos depois, sempre nas argolas.

Estar em isolamento nem sempre é sinônimo de solidão. Zanetti não dispensa nem mesmo a conversa com animais para manter o espírito leve. "Tenho em casa duas crianças de quatro patas, os meus cachorros. Agora a gente fica um tempinho maior com eles e pode brincar mais".

Caio se beneficia por morar em casa com amplo quintal, em Volta Redonda, e não hesita em manter o tônus muscular com um instrumento bastante conhecido por milhões de trabalhadores rurais brasileiros: a enxada. "Além de capinar mato e roçar, amasso e pinto paredes". Uma certa vocação de Professor Pardal vêm à tona em meio à crise sanitária numa rotina recriada com tantos afazeres. "Não fico parado de jeito nenhum. Fiz algumas coisas que me ajudam a treinar, como um taquinho, e estou terminando de construir um cogumelo, um aparelho auxiliar que me ajuda para treinar o cavalo com alças".

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