O legado de Francisco Alves para a Música Popular Brasileira

Francisco de Moraes Alves foi a figura central do movimento que revelou os compositores dos morros cariocas


Buick de Francisco AlvesBuick de Francisco Alves (Foto : Antigas publicações)

Eram outros tempos na música popular brasileira. Os cantores tinham voz, os corais eram afinadíssimos, diferente das gralhas que todos ouvem na atualidade. Da favela da Mangueira, do Estácio, do Catumbi, de Madureira, surgiam verdadeiras pérolas do cancioneiro popular. Foi nesse cenário carioca que o samba se consolidou como ritmo nacional. Nesse ambiente, nasceu Chico Viola que viria a gravar cerca de mil discos.

Francisco de Moraes Alves foi a figura central do movimento que revelou os compositores brasileiros, em especial, dos morros do Rio. Rapaz franzino com vozeirão incrivelmente afinado e de inquestionável alcance, diziam os cronistas da época. Era sério, líder, às vezes rude, mas de bom coração e exigente com a qualidade do que cantava e compunha. Foi o elemento principal na fixação do samba brasileiro como ícone de uma musicalidade nacional, capaz de impedir a entrada de ritmos estrangeiros no mercado.

Após sua morte é que a resistência da música brasileira foi derrubada. Era então uma tarde nublada de sábado, 27 de setembro de 1952. Depois de realizar um show em São Paulo, onde destinou a arrecadação de seu mais novo disco para as crianças da Casa de Lázaro, Francisco Alves voltava para sua cidade natal, o Rio de Janeiro.

O cantor dirigia um veículo de sua propriedade, um  buick azul chapa 11-65-80 D.F., verdadeiro bólido para a época. Quando trafegava na altura do bairro Pinhão do Una (região hoje também conhecida como Chico Alves),  já dentro dos limites de Pindamonhangaba, aconteceu a fatalidade: um violento choque com um caminhão carregado de leite ceifou a vida do “Rei da Voz”. Após a colisão, o carro do cantor capotou várias vezes antes de se incendiar.

Na delegacia de Pindamonhangaba, uma equipe da Rádio Nacional do Rio de Janeiro veio resgatar o que sobrou de Francisco Alves. Em um canto da delegacia, a comitiva recolheu um pequeno toco de carvão que foi colocado em uma urna do caminhão do Corpo de Bombeiros, seguindo então pela Via Dutra, em meio à muitas homenagens em cada cidade que passava.

Na Cinelândia passaram mais de 500 mil pessoas para a despedida ao ídolo e foi a maior concentração popular já vista, só superada três anos depois com a chegada do corpo de Carmen Miranda. A urna ficou, no salão da Câmara Municipal até segunda-feira e pela primeira vez foi transportada por um veículo do Corpo de Bombeiros. Foi o primeiro e gigantesco enterro da era da comunicação de massa. Sob aplausos, lágrimas, desmaios e canto, Chico Viola foi sepultado no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

CruzCruz (Foto : Antigas publicações)Os mais antigos lembram com saudade e as novas gerações questionam essa veneração por um astro que faleceu há várias décadas. Mas o legado musical e cultural deixado fala mais alto, tanto que, durante a cerimônia de abertura das Olimpíadas 2016, embora passando desapercebida, a voz que cantava “Aquarela do Brasil”, de autoria de Ary Barroso, era a de Francisco Alves.

Durante as seis décadas decorridas de sua perda, uma singela cruz envelhecida e abandonada. continua sendo o símbolo solitário que homenageia o cantor às margens da Via Dutra, em Pindamonhangaba. Nela. era possível ler até há pouco tempo uma mensagem escrita pelos fãs há mais de 60 anos: “Uma cruz, um violão, uma saudade”.


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