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- 27/09/2012 05h05 - Ocimar Barbosa | Foto : Web

1952: Brasil perdia em acidente auotomobilístico o Rei da Voz, Francisco Alves

 

"Tu só tu madeira fria,há de sentir toda agonia do silêncio do cantor".No túmulo do esquecido intérprete estão escritos esses versos de autoria do compositor David Násser .Chico Alves está sepultado no cemitério S.João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro.
 
As gerações se sucederam e poucos lembram-se de um homem magro, poeta, sempre acompanhado de um violão, de terno branco bem alinhado e sorriso farto. Fã de cavalos, carros, cães, crianças e mulheres, ele reinou por quase quatro décadas na música nacional e foi o responsável por fixar o samba como principal artigo da música brasileira ainda engatinhando.
 
Naquela tarde de 27 de setembro de 1952, o Brasil perdeu quase toda a sua brasilidade, perdeu o lirismo, a letra romântica, a voz forte quase teatral que fazia a batucada ser sentida não só no corpo como hoje em dia, mas na alma de seus adeptos. O brasileiro perdeu, na Via Dutra, naquele sábado, a blindagem que a música brasileira exercia contra os invasores de outras culturas e seus idiomas que não conhecem o termo 'Saudade'.
 
A origem 
 
Francisco de Moraes Alves nasceu no Rio de Janeiro em 16 de agosto de 1898, no bairro da Saúde e conviveu com o início da música nacional. Até então, a sociedade brasileira ouvia e dançava as estrangeiras Polcas, Valsas e Maxixe.
 
Ainda pequeno, Chico desafiou seu autoritário  pai, o português José Alves, e em companhia de alguns garotos montou um grupo musical para se apresentar nas ruas do velho Rio de Janeiro. E não é que o menino era bom? Afinado, o pequeno começou a encantar o público e raramente voltava pra casa sem alguns trocados no bolso.
 
Em 1918, já moço, depois de trabalhar como chofer de taxi nas noites e também em uma indústria de chapéus, Francisco Alves recebeu o convite para gravar seu primeiro disco, mas só foi estourar mesmo no carnaval de 1920. Logo, a figura esbelta - que tirava o chapéu para as damas, mas que também tinha a fama de 'sair  no braço' com seus desafetos - já era o astro mais bem pago do país.
 


No decorrer de sua vida, foram quase mil canções, várias delas de compositores negros. Francisco Alves, que morou em bairros como Estácio de Sá e Vila Isabel, conviveu com o início das escolas de samba. Sua parceria com o refinado e acadêmico Mário Reis, fez com que o samba brasileiro encontrasse a sua levada ideal, aquele 'atraso' proposital no compasso e no vocal que o dissociou do velho maxixe. Chico deve isso também às visitas constantes que fazia ao então recente bairro Cidade Nova, onde uma gorducha e sorridente baiana, Tia Ciata, recebia no catumbi os músicos negros e brancos para suas sessões de batuque e candomblé, regado a muita feijoada e bebida. Foi ali, no Catumbi, que o samba se desenhou, com Pixinguinha, João da Baiana, Donga, Sinhô e Heitor dos Prazeres, e mais tarde outros grandes letristas foram aparecendo, como Lamartine Babo, David Nasser e o imortal Noel Rosa, entre outros.
 
As músicas às quais emprestou seu inconfundível vozeirão ainda são ouvidas: Despedida da Mangueira, Dona da Minha Vontade, A Mulher que Ficou na Taça, Aquarela do Brasil, Canta Brasil, Serra da Boa Esperança, Na Virada da Montanha, Caminhemos, Jura, Estrela da Manhã, entre muitas, vez ou outra ganham novas roupagens com os cantores atuais, tão carentes de compositores de brilho e artistas de alma canora. 
 
Profissional obstinado
 
Um homem simples, mas sério, bastante obstinado quando o assunto era produção musical. Era visto por seus inimigos (que não eram poucos) como egoísta, sovina, mas a história revelou que isso era fruto da inveja daqueles que preferiam as noites com as prostitutas, o carteado e a vida fácil nas esquinas. Chico Alves era homem de trabalho e ajudou muitos em começo de carreira. Muitos compositores foram auxiliados por Francisco Alves, a maioria deles, negros dos morros, das favelas da Mangueira, Rocinha, São Carlos... 
 
Chico subia a colina em busca de talentos, de novas músicas e nessas transações, invariavelmente comprava letras razoáveis de alguns obscuros cantores que queriam uns trocados para s noitadas. Mas, com o estilo e o conhecimento musical que tinha, Francisco Alves, dava à canção o seu toque especial e era exigente no arranjo, e na escolha do coral (pastorinhas). Ele, no entanto, sabia reconhecer os méritos de seus companheiros.
 
Torcedor do América - RJ, era fanático por futebol. O cantor viveu três relacionamentos amorosos. O primeiro foi polêmico, quando ainda aos 20 anos resolveu casar-se com Perpétua Guerra Tutoia (Ceci), mulher de vida noturna. Apesar da oposição familiar, o jovem se envolveu em uma vida conjugal que não durou mais que duas semanas.
Depois, Chico Alves conheceu a cantora chilena Célia Zenati, grande amor de sua vida, com quem viveu 28 anos. A terceira esposa foi Iraci, companheira dos últimos quatro anos de sua vida. Com nenhuma delas nasceram filhos, e o cantor se declarava estéril.
 
O fim trágico



Foto publicada na extinta revista O Cruzeiro, de setembro de 1952

Uma comoção generalizada envolveu o país no domingo, 28 de setembro de 1952, com o velório e enterro de seu grande ídolo. A Rádio Nacional do Rio de Janeiro, emissora onde o cantor tinha um programa dominical sempre a partir das 12h00, tocava suas canções harmônicas, como um culto doloroso à voz mais brasileira de todas, calada no dia anterior por uma colisão na recém inaugurada Via Dutra, em Pindamonhangaba-SP.
 
Francisco Alves cantou naquele sábado para uma multidão em São Paulo, e sua última apresentação foi no Largo da Concórdia, no Brás. O cantor lançava naquela ocasião um disco promocional, cuja arrecadação total de sua venda era destinada às crianças da Casa de Lázaro, no Rio. A música 'Canção da Criança'  foi gravada com a participação dos pequeninos do orfanato.

Acompanhado de um jovem primo, Haroldo Alves (que escapou vivo do acidente),  cantor nunca negou que sempre teve pavor de viajar sozinho. Chico saiu ainda de madrugada do Rio com destino a São Paulo. Após cumprir seu compromisso, resolveu voltar naquela mesma tarde porque seu time, o América, tinha jogo importante contra o Bangu, no ainda novinho Estádio do Maracanã.
 
Segundo os registros da época, era 17h28 minutos quando o cantor vinha pela Dutra no sentido Rio de Janeiro com seu Buick azul, ano 50, a cerca de 140 km/hora. A rodovia tinha naquela época apenas uma pista. Ex-motorista de uma empresa de ônibus que passava pelo local naquele momento, sr. Heyni Santigo, morador de Pindamonhangaba já falecido, deixou em depoimento o que viu daquele acidente e como tudo aconteceu. Segundo seu relato, de repente, entra um Mércury preto no sentido São Paulo, à frente de um caminhão Austin que trafegava embalado no mesmo sentido. O caminhoneiro, do Rio Grande do Sul, é obrigado a desviar para a esquerda pra não colher o Mércury, e joga o veículo para a pista de areia. Chico Alves também desvia do carro preto e vai para a areia, quando então ocorre a colisão. O Buick é colhido de lado, bem na posição do motorista, e rola pelo barranco, incendiando-se de imediato.
 
O fim de tudo
 
Mais tarde, na Delegacia de Pindamonhangaba, o delegado da época, dr. Pantaleão recebeu a equipe da Rádio nacional do Rio de Janeiro que veio para levar os restos mortais do cantor. A eles foi entregue um pequeno pedaço carbonizado, de pouco mais de 50 cm. No caminho, em todas as cidades até o Rio, as pessoas margeavam a Via Dutra, jogando flores sobre o caixão.
 
Na então capital federal, o Rio de Janeiro, Francisco Alves foi velado na Cinelândia por onde passaram mais de um milhão de pessoas, gente de todo o Brasil, de todas as raças, condições sociais, credos e cores. Ao lado da urna mortuária, as crianças da Casa de Lázaro cantavam a cançao que Chico a elas dedicou nos seus últimos dias de vida. Muitos desmaios, tumulto, e lágrimas envolveram a partida da urna funerária sobre um caminhão do Corpo de Bombeiros.
Foi a maior tragédia nacional até então, comoção só vista três anos mais tarde, com a morte de Carmen Miranda.
 
Calava-se a voz maioral da MPB antiga. Enquanto isso, no local onde o artista pereceu, durante muitos anos havia uma humilde representação de seu grande legado à música brasileira. Uma pequena cruz, com um violão pendurado bem que tentou desafiar o tempo, mas foi exorcizada 60 anos depois pela falta de respeito dos governantes nacionais e da cidade. 
 
A identidade brasileira, permanece o que sempre foi: de pouca consideração com a memória e contribuição cultural do passado à formação, perfil e história da sociedade.
 
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