Por que muitos assistentes pessoais possuem voz de mulher?

Assunto foi abordado pela Unesco em recente relatório que apontou reprodução de estereótipos nos assistentes virtuais


O papel da mulher na sociedade passou por grandes transformações ao longo da história, o que levou à discussão e ao questionamento acerca da razão de grande parte dos assistentes virtuais e ferramentas como chatbots possuírem vozes ou nomes femininos. É assim com a assistente pessoal da Amazon (Alexa), da Microsoft (Cortana) e com a Siri (da Apple).

Embora a Apple e a Google já permitam mudar de forma manual a voz para o masculino, a versão padrão ainda é uma voz feminina. Existem várias explicações para esse fenômeno. Estudos indicam que o cérebro humano tem mais propensão para apreciar as vozes das mulheres em relação às vozes dos homens, considerando-as mais calorosas, dependendo do gênero de quem ouve.

Mas a hipótese mais forte é a de que os softwares foram criados majoritariamente por homens, o que culminou em um reforço de estereótipo feminino. A editora da revista The Atlantic, Adrienne Lafrance, abordou o tema em uma reportagem publicada em março de 2016. De acordo com ela, a explicação mais simples para as vozes e nomes femininos é o fato de os homens associarem trabalhos administrativos, como o cargo de secretária, às mulheres.

É um reflexo, portanto, do mundo no qual vivemos, ainda permeado por desigualdade de gênero e pelo machismo estrutural presente na sociedade. "À medida que passamos a uma nova era da automação, a tecnologia que estamos criando revela de maneira incômoda a forma como a sociedade percebe as mulheres e o trabalho", escreveu a escritora e colunista inglesa Laurie Penny, em um texto para a revista New Statesman.

O assunto preocupa especialistas e os próprios diretores de grandes empresas. Em 2014, quando a assistente virtual da Microsoft foi lançada, eram comuns perguntas sobre a vida sexual dela, de acordo com entrevista dada à CNN por Deborah Harrison, uma das oito escritoras dos diálogos da Cortana. "Queríamos ser muito cuidadosos para que ela não parecesse subserviente de forma alguma... Ou que poderíamos estabelecer uma dinâmica que não queríamos perpetuar na sociedade", disse a especialista.

Um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU), lançado no final de maio de 2019, também revelou uma tendência estereotipada nos assistentes virtuais. O estudo foi elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e chegou até mesmo a recomendar que as organizações não fizessem mais assistentes pessoais com vozes femininas como padrão.

Voz sem gênero

Pensando na questão, um grupo de ativistas, linguistas e engenheiros desenvolveu uma voz sem gênero para assistentes pessoais. Eles encontraram uma faixa neutra de 145 HZ e 175 HZ, a partir de gravações de pessoas com diferentes identificações de gênero. O projeto foi chamado de "Q" e foi desenvolvido pela agência Virtue Nordic, sediada em Copenhague, na Dinamarca, em parceria com o festival Copenhagen Pride e com a cientista social Julie Carpenter.

Com o objetivo de combater o preconceito na área de tecnologia, a voz sem gênero criada pela agência pode contribuir para mudar os paradigmas atuais, em que vozes masculinas são usadas em funções que requerem autoridade, como aplicativos bancários e de seguros, e vozes femininas estão mais associadas ao serviço, como no caso da Siri e da Alexa.

A voz de gênero neutro foi criada a partir de cinco amostras coletadas e moduladas com a ajuda de um software de neutralização. As vozes moduladas foram testadas na Europa em uma pesquisa com mais de 4.000 participantes que avaliaram cada som em uma escala de um (masculino) a cinco (feminino).

Depois de reduzirem o resultado a uma única voz, os estudiosos a modularam novamente e retomaram a pesquisa até que esta fosse percebida como neutra em termos de gênero pelos participantes. De acordo com a agência, a ideia é empregar a voz sem gênero não apenas em aplicativos e assistentes virtuais, mas também em locais públicos, como metrôs, teatros e jogos.

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