Como um software de animação mudou a história do cinema a partir de Toy Story

RenderMan, um programa utilizado desde o final dos anos 1980, deu vida aos bonecos Woody e Buzz, que voltaram ao cinema neste mês


Com o quarto filme lançado neste mês, a série Toy Story mantém sua relevância por causa de um legado particular. Do ponto de vista de gênero, a relação entre os bonecos Woody e Buzz Lightyear criou os roteiros baseados nas relações de amizade, permitindo aos roteiristas explorar temas como abandono, envelhecimento e consumismo. O trabalho deles tinha como referência antigos do cinema estadunidense, como Alfred Hitchcock, Ridley Scott e Steven Spielberg, cujos filmes podiam ser vistos por todos os membros de uma família.

Já o legado dos efeitos visuais da franquia é mais complicado, mas também significativo. O lançamento do primeiro filme Toy Story, em 1995, marcou não apenas o primeiro filme de animação feito inteiramente nesse modelo, mas também ajudou a Pixar a vencer a corrida ombro a ombro na indústria de animação, com seus efeitos se tornando um pilar das grandes obras cinematográficas comerciais.

O fator crucial, segundo os roteiristas, foi o RenderMan, um software que permitia aos produtores criar imagens fotorrealísticas por meio de um notebook doméstico. Como seus antecessores, Toy Story 4 foi feito usando a mesma ferramenta, a primeira da história utilizada para produzir fitas de cinema. 

Antes, ela já tinha sido usada para produzir O Segredo do Abismo (1989), em uma cena em que o personagem aparece com tentáculos embaixo d'água, e O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1991), para criar efeitos líquidos no rosto do vilão de Arnold Schwarzenegger.

O RenderMan permitiu a criação de imagens realísticas que se movimentam de formas verídicas. Os animadores podiam gastar pouco tempo, assim, em cuidar da veracidade das cenas, e mais em criar tons de pele que permitiriam imagens de atores como aliens, por exemplo. Além disso, a ferramenta deu aos grandes estúdios de Hollywood a confiança em investir em projetos mais ousados, como os da franquia Marvel e DC, assim como nas produções caras que reviveram a série Star Wars.

De Blade Runner 2049 a X-Men: Apocalipse, a lista de filmes que usaram o RenderMan é interminável.

"O RenderMan produz desenhos sobre luzes e posições virtuais de geometria", disse Lee Danskin, diretor da Escape Technology, consultoria de tecnologia cinematográfica estadunidense, ao jornal New York Times. "Ele vai além e faz os cálculos e maneja vastas quantidades de geometria e vastas quantidades de luz, além de conseguir rodar mesmo em máquinas mais velhas", como dos anos 1990, completou.

O RenderMan dominou a indústria dos efeitos visuais do cinema depois do lançamento de Toy Story, ajudando a dar Oscars de Melhor Efeito Visual a Independence Day (1996), Titanic (1997) e Amor Além da Vida (1998). No entanto, não demorou para que a ferramenta tivesse seus rivais, como o Arnold, um programa de renderização desenvolvido em 1997 que foi adotado pela Sony Pictures e utilizado na produção de filmes como Os Vingadores (2012), Gravidade (2013) e Birdman 2014).

"O Arnold é um renderizador poderoso que logo começou a superar o RenderMan da Pixar. Ele promoveu uma grande mudança na indústria", afirmou Danskin. Toy Story 4 foi feito com uma versão atualizada do RenderMan que utiliza traços a raio, permitindo alcançar detalhes granulares no sombreamento de luz.

Toy Story 4 está em cartaz nos cinemas brasileiros desde o dia 20 de junho.

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