Tite, o ex incontestável?

Tite, antes da Copa da Rússia-2018 pelo seu retrospecto a frente da Seleção Brasileira, era tido como incontestável por muitos no Brasil. Porém, com a eliminação frente a Bélgica este status estaria entrando num processo de reversão?


Tite dará sequência aos dois anos de trabalho frente a Seleção Brasileira, como sabemos um trabalho muito bem remunerado diga-se de passagem, dos 32 técnicos que disputaram a Copa Tite era o segundo mais bem pago. E com a renovação do seu contrato com a CBF subiu ou desceu nesta lista?

De salário Tite está entre os top 10, mas com o mau resultado na Copa da Rússia não foi inserido na lista dos 11 melhores técnicos do mundo, assim, como o Neymar que ficou de fora da lista de top 10 dos melhores jogadores do mundo. Seria Tite um dos responsáveis?

A CBF entendeu que deveria renovar com o técnico até 2022 na Copa do Qatar e manter seu projeto. Também o manteria! Entendo que dois anos frente a seleção é um período curto, mas para conhecer a dinâmica institucional, o campo delicado da política da entidade é um bom tempo, já deu para ele entender onde esta pisando, agora quais seriam suas possibilidades de trabalho, dizem que não terá mais carta branca, mas quais cartas seriam essas? As cartas de acesso à propagandas midiáticas? São muitos dúvidas, no entanto, quero me ater com a parte de dentro de campo.

Defensor da meritocracia, não utilizou desse conceito para convocar jogadores que fizeram por merecer dentro de campo, caso de Luan e Arthur campeões da América pelo Grêmio em 2017. Seguindo uma lógica de outros treinadores, que não convocaram jogadores que estavam merecendo por estarem atuando bem em seus clubes e sendo destaques em campeonatos que disputavam. Apresento alguns exemplos de técnicos e respectivos jogadores que não foram convocados e que de quatro em quatro anos são lembrados: Coutinho e Falcão em 1978, Telê e Leão em 1982, Telê e Renato Gaúcho em 1986, Lazaroni e Neto em 1990, Parreira e Rivaldo e Evair em 1994, Zagalo e Djalminha em 1998, Felipão e Romário em 2002, Parreira em 2006 e Dunga em 2010 não convocaram Alex e Felipão e Ronaldinho Gaúcho em 2014. Nestes 40 anos, de 1978 a 2018, de Coutinho a Tite, os técnicos mantiveram sua convicções e não obedeceram o clamor das ruas e a opinião do povo, mas quando sofrem pressão, pedem encarecidamente o apoio do torcedor. Outro ponto a se destacar é que Tite e Coutinho foram os únicos que se mantiveram no cargo após eliminações em Copa.

Então, fato que nas Eliminatórias Sulamericanas Tite fez a Seleção Brasileira jogar e sua proposta de jogo ficou nítida dentro de campo e se encaixou na competição em questão, abrindo um parênteses, antes com Dunga, que caiu após eliminação pelo Peru ainda na primeira fase da Copa América de 2016, o certo é que se tivesse o VAR naquele jogo o gol de mão do Peru seria anulado, como seria a Copa da Rússia com Dunga?

Voltamos as Eliminatórias Sulamericanas, o Brasil estava em sexto colocado e fora até da repescagem para a Copa da Rússia, com Dunga o Brasil havia ganhado duas, empatado 3 e perdido 1, com a entrada de Tite o Brasil em 11 jogos, venceu 9 e empatou 2. Após os resultados nas Eliminatórias Sulamericanas, que de fato com Tite a Seleção Brasileira sobrou em campo e terminou invicta a competição se classificando para a Copa. Antes da Copa a Seleção realizou dois amistosos, com a Croácia e Áustria, mais duas vitórias e com sua trinca ofensiva, Neymar, Coutinho e Gabriel Jesus, funcionando. A mídia o considerou incontestável na ocasião, a opinião pública e torcida também, o grito de já ganhou começou a ser entoado naquele momento.

Vamos lá, como diz um famoso narrador e seus comentaristas: "copa do mundo é copa do mundo, amigo".

E na Copa da Rússia sua proposta de jogo não encaixou, vimos uma Seleção com inúmeras dificuldades ofensivas, sem criatividade, individualmente, o artilheiro da sua era não conseguiu balançar as redes, muito abaixo do nível técnico esperado, sua referência técnica virar piada mundial e Tite apostou pouco nas suas opções e possibilidades de mudança, morrendo abraço as suas convicções. Houve, também, desconexão e divergência no discurso de preparadores físicos e médicos na recuperação dos jogadores lesionados. Agora pergunto, o que estavam fazendo 40 profissionais do apoio ao técnico? Seria a CBF contaminada pela era da ostentação? É necessária tamanha quantia?

Exageros a parte ficam alguns pontos a serem questionados, exposto em razão do fracasso. Os "parças", o que dizer deles, gravar treino secreto e postar nas redes sociais; esposa reclamar, novamente em rede social, das acomodações, dos imprevistos e mudança de hotel; familiares no mesmo hotel dos jogadores; festas privadas de pai de jogador; CBF organizando a viagem dos convidados dos jogadores. Tudo isso, de quem seria a culpa?

Esta desorganização refletiu dentro de campo, mas se ganhasse tudo seria encoberto pelos próprios denunciantes. Está é a verdade! Ou iriam vir com o discurso de um ambiente leve e descontraído na concentração, apoio dos familiares, amigos e blablabla blablabla! Iria ser assim, isso falo, observando as outras Copas e situações do país, há uma cultura brasileira de buscar culpar um indivíduo e reduzir o erro coletivo, tirando o foco de questões maiores, no caso da eliminação da Seleção o enfoque se voltou ao erro técnico de Fernandinho, jogador que participou do fatídico 7 a 1 contra a Alemanha.

Tite realizou um trabalho excepcional no Corinthians de sucessivas renovações e com muito mérito conseguir manter sua equipe em alto nível, na seleção seu primeiro ciclo de trabalho obteve-se um resultado expressivo nas Eliminatórias Sulamericanas e uma Copa aquém das expectativas que culminou com a eliminação para a jovem seleção belga dos jogadores Hazard e Lukaku. Mas o retrospecto de Tite na Seleção Brasileira é bastante interessante, em 26 jogos foram: 20 vitórias, 4 empates e 2 derrotas.

Havia uma expectativa quanto o futuro de Tite no futebol, do seu projeto Europa, optou por iniciar um próximo passa na sua carreira com o novo ciclo de quatro anos que se inaugura, a experiência da Rússia/2018, com certeza, o trouxe inúmeras reflexões e possibilidades de amadurecimento, a bem da verdade, que só será garantida a sua manutenção no cargo de técnico da Seleção Brasileira com os resultados positivos nas competições, a próxima será a Copa América que será disputada no Brasil em 2019.

A certeza que fica é que Tite tomou conhecimento de que "copa do mundo é copa do mundo, amigo".

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