O João Sem Medo

João Saldanha foi técnico da Seleção Brasileira na eliminatória para a Copa do México de 70, mas demitido do cargo a menos de três meses da competição após polêmicas com o presidente da república da época.


João Saldanha, o João Sem Medo, gaúcho de Alegrete, nasceu em 03 de julho de 1917, foi um ativo militante do partido comunista, preso e exilado. Saldanha, ?o comentarista que o Brasil inteiro consagrou? era crítico e criativo. Criou termos e frases que ganharam destaque e marcaram a história do futebol brasileiro, como:

Se continuar jogando assim vai cair do cavalo.

A vaca vai para o brejo.

Entregou o ouro ao bandido.

Mapa da mina.

Briga de dois, o segundo tira último.

Se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária não perdia um.

A bola não respira nem cansa. Ela é redonda. Ela é quem deve correr mais em campo.

Se colocarem a Brigitte Bardot no Santos e o maior técnico do mundo no São Cristóvão, Brigitte Bardot será campeã, fácil, fácil.

Campo de futebol não é loteamento. Ninguém pode ter posição fixa.

Hoje o Garrincha morreria de tanta pancada em campo.

Se eu não fosse otimista eu já tinha me naturalizado dinamarquês. Confio muito no nosso povo e no nosso país.

Ora se macumba ganhasse jogo o campeonato baiano terminava empatado.

Certa vez Nelson Rodrigues disse "que os fatos divergiam das versões de Saldanha. Pior para os fatos, porque a versão dele é sempre melhor". Tamanha sua popularidade nacional rendeu a participação especial na novela Irmão Coragem em 1970.

Botafoguense, amigo de Heleno de Freitas, um dos maiores ídolos da história da Estrela Solitária, torcedor, dirigente e por um acaso tornou-se técnico, na ocasião, seu grande feito foi trazer Didi do Fluminense para formar com Nilton Santos, Garrincha e Paulo Valentim um grande timaço, temido e campeão carioca de 1957, permaneceu no cargo por dois anos, até 1959.

Polêmico, sempre se envolveu em brigas, uma das mais famosas foi com Manga, após suspeitar de suposto suborno ao goleiro pelo patrono do Bangu, o bicheiro Castor de Andrade, fato que coincidiu com uma má atuação de Manga contra o Bangu. Saldanha foi numa noite ao encontro de Manga armado, atirou algumas vezes em direção ao goleiro, por sorte não acertou nenhum tiro e se justificou dizendo que o local estava escuro. Em 1966 numa das piores participações da Seleção Brasileira, Manga era o goleiro e foi alvo das duras críticas de Saldanha, na ocasião, já era um comentarista consagrado.

Em 1969 João Havelange, presidente da então CBD (Confederação Brasileira de Desporto) atual CBF (Confederação Brasileira de Futebol), no auge da ditadura militar, convida o popular Saldanha, para ser o técnico da Seleção Brasileira. Em sua primeira convocação, polemiza, escalando as feras de Saldanha.

Nas eliminatórias a Seleção sob seu comando fez uma campanha invicta, venceu os 6 jogos, fazendo 23 gols e levando apenas 2 gols, apresentando, principalmente, um bom futebol.

Após 13 jogos de invencibilidade, no ano da Copa do México, a história de Saldanha na Seleção se reverte e na cultura do futebol brasileiro, quando os resultados não vem evidencia-se outros aspectos, neste caso, o ataque a Saldanha foi em torno das suas polêmicas, do seu temperamento forte e principalmente, das suas convicções políticas.

Desta forma, o estopim foi o não atendimento a um pedido do então Presidente da República Emílio Garrastazu Médici que queria a convocação de Dário, o Dadá Maravilha, atacante do Atlético Mineira e a polêmica declaração direcionada ao presidente: "nem eu escalo ministério, nem o presidente escala time".

Assim, a menos de dois meses e meio da Copa, 15 dias após essa declaração e um empate num amistoso preparatório contra o Bangu Saldanha foi substituído do comando da Seleção por Zagalo.

Após ser avisado da decisão de sua demissão por dirigentes da CBD imediatamente Saldanha se pronunciou na rádio: "já voltei para minha trincheira de luta".

A história todos nós sabemos, com as feras de Saldanha, o Brasil sagrou-se o primeiro país a conquistar três mundiais e adquirir por definitivo a taça Jules Rimet e Pelé coroado o rei do futebol.

Agora pergunto, seria admissível, um técnico popular, revolucionário, membro do partido comunista, erguer a taça e arriscar o projeto de ordem e progresso defendido por um presidente ditador?

O João Sem Medo, ao longo do jogo da sua vida, não abriu mão em nenhum minuto de suas convicções políticas e nem deixou de lutar por elas.

Morreu aos 73 anos quatro dias depois do jogo final, após comentar a participação brasileira na Copa da Itália de 1990.

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