O brincar na rua e seus impactos no esporte

Brincar é importante para a construção do vocabulário motor e para o despertar da prática esportiva, no entanto, esta cada vez mais inviável tal prática nas ruas por razões dos inúmeros problemas urbanos, em especial o da violência.


A rua foi num passado recente um espaço de convivência e desenvolvimento para as crianças e adolescentes, muitos aproveitavam cada metro deste local para brincar, as brincadeiras eram, na maioria das vezes, o primeiro contato com uma modalidade esportiva e um momento significativo de descoberta e despertar para o esporte.

A rua deixou de ser um espaço para as brincadeiras em muitas cidades brasileiras. Antes podia-se brincar na rua, isso era de extrema importância para o desenvolvimento humano e motor, mas hoje, sabemos dos problemas urbanos, em especial o da violência. Se pararmos para pensar é difícil encontrarmos alguma rua segura para as crianças brincarem e se desenvolverem.

Lembro-me das brincadeiras na rua onde morava, todas giravam em torno do esporte, eram inúmeras brincadeiras que estimulavam diferentes habilidades motoras.

Sem falar nos jogos, nas negociações que envolviam as trocas de figurinhas, a organização dos jogos, organizamos todos, lógico que a organização era da nossa maneira, mas dava sempre tudo certo, o jogo saia. Isso, nem preciso dizer, foi importante para a construção da autonomia e tomada de decisão, atitudes importantes para as nossas vidas e que despertaram minha paixão pelo esporte.

Fato era que aprendíamos todos juntos e muito, isso demandava um conhecimento que não tínhamos e que adquirimos brincando, foram momentos muito significativos para o meu aprendizado, para a aquisição de responsabilidades.

Retomando a discussão, as transformações socioculturais que interferiram no mundo, também geraram impactos no esporte, refletindo no processo de formação e produção da principal matéria prima do esporte, o atleta.

Especificamente deixar de brincar na rua comprometeu o desenvolvimento motor dos indivíduos, reduziu suas vivências e experiências corporais, fato que causou consequência no esporte.

Especialmente em nosso país, penso temos totais condições e potencial para ser o país do esporte, não se limitando apenas em ser o país do futebol e não vejo nenhuma instituição, especialmente o COI, arquitetando ou mesmo propondo esse projeto de transição do país futebol para o do esporte.

Não pretendo discutir em qual local a criança aprende mais ou menos, só quero ressaltar que na rua por ser um espaço permeado pelo lúdico, pela autonomia e tomada de decisão há aprendizado espontâneo e clubes e escolas são espaços de aprendizado sistematizados que devem resgatar o brincar nas suas atividades cotidianas, assim sendo, o professor/treinador deve ser preparado para ser um mediador e não um mero fiscalizador do espaços apenas para vigiar e punir as crianças.

Vemos iniciativas importantes sendo executadas por clubes estrangeiros e brasileiros, como Barcelona e Cruzeiro que implantaram aspectos vivenciados e experienciados na rua nas suas metodologias e ações pedagógicas, no Barcelona há momentos para se brincar de futebol sem a intervenção do adulto/treinador e no Cruzeiro foi construída uma rua para as crianças simplesmente brincarem, são iniciativas que valem a pena conferir.

No entanto, algumas saudosistas irão dizer: bons tempos eram aqueles que tínhamos possibilidade de brincar na rua, é certo que num passado recente havia essa possibilidade de brincar nas ruas, que hoje em muitas ruas não há.

A formação esportiva não trata-se de um acaso, bênçãos divina, herança genética e sim de um programa bem estruturado, construído a partir das vivencias e experiências corporais, com processos pedagógicos e metodológicos sistematizados.

Por fim, são vários aspectos para essa questão, no entanto, o resultado do contexto dos problemas urbanos atuais geram perdas significativas, tanto no quantitativo quanto principalmente no qualitativo na formação de novos atletas. A formação esportiva deve ser revista urgentemente. As escolas de esporte devem fazer com que as crianças reproduzir alguns elementos da rua, em especial o brincar, que julgo ser o elemento central para uma formação humana e esportiva de qualidade.

No esporte é urgente o fomento ao brincar visando a formação do jogador inteligente corporalmente.

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