Paisagem Tirei o dia de hoje para fazer uma faxina em minha alma, uma arrumação do meu eu, um tanto quanto desarrumado pelas dores, dissabores, encontros e desencontros. Diante de mim mesmo, fiz uma reflexão sobre os acontecimentos de minha vida, o que fiz e aquilo que ainda poderei fazer antes de fechar a minha biografia e virar saudade.
Classifiquei cada sentimento, etiquetei os dissabores, arquivei os medos e frustrações. Agendei aquilo que ainda pretendo fazer neste último quartel de minha vida e prometi a mim mesmo ser uma nova pessoa. Extravasar meus sentimentos. Beijar meus filhos, abraçar os amigos, amar a pessoa amada.
Caminhar muito mais, prestando atenção às pequenas sutilezas da vida, como uma flor que teima em romper a terra e brotar radiante, perfumando nosso cotidiano. Quero deliciar-me com o canto dos pássaros e olhar todo dia para o céu, para saudar o amigo Sol e conversar com a lua e as estrelas.
Quero jogar no mais fundo poço as mágoas, para que jamais voltem a azucrinar nossas vidas. Quero resgatar amizades desfeitas, sonhos atropelados, desejos deixados pela metade.
Quero passear de mãos dadas com a pessoa amada, sem destino, e que nosso destino esteja escrito nas estrelas.
Quero visitar pessoas e lugares, vistos ou esquecidos. Quero rebuscar lá dentro de mim a criança que um dia fui e resgatar sua mais pura singeleza, para repartir com todos. Quero comer um bombom bem gostoso, tomar um sorvete ao cair da tarde, vendo o dia morrer feliz.
Quero que meu coração seja um relicário de boas recordações e de repente me pegar rindo de mim mesmo, dos percalços sofridos, do bem conquistado, das boas realizações. Quero me olhar no espelho e me ver como sou de verdade, sem falsidades ou meias-verdades.
Quero acordar com o Sol, sentindo o cheirinho bom do café passado na hora. Quero olhar o mundo lá fora e poder dizer para meus próprios botões: a vida é boa. Quero recordar meus amigos e entes queridos que já fizeram a passagem para o outro lado do mistério e ter a certeza que todos são agora seres iluminados e que zelam por nós.
Quero deixar como legado coisas singelas, como a minha vida modesta e minha legião de amigos, meu patrimônio moral que procurei enriquecer dia-a-dia, espelhando-me na figura de meus finados pais. Quero que, ao partir, as pessoas possam dizer: “O Camões foi um cara legal...”
Camões Filho, jornalista, escritor e pedagogo, é membro titular da Academia Taubateana de Letras.