Demorou, mas estou de volta. Eu já havia comentado sobre um destes carros na matéria 500 Km de Interlagos. Desde então, tenho imaginado como seria um teste com um digno representante dos muscle cars brasileiros, mas eu não esperava nem nos meus mais acelerados sonhos que contaria com a disponibilidade de dois deles de uma vez só. “Aí sim, hein...!”, diria um conhecido meu.
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Um resumo da história. No início dos anos 70, a Ford produzia o Corcel e o Galaxie, porém nenhum dos dois era concorrente direto do Chevrolet Opala, lançado em 1968. O carro equivalente em tamanho ao Opala era o Aero Willys, fabricado pela Willys Overland, adquirida pela Ford em 1968. Apesar das similaridades quanto às dimensões, o Aero Willys apresentava uma defasagem técnica se comparado ao Opala, pois fora projetado no pós-guerra e remodelado em 1962. Por isso, a Ford precisava agir rápido para aumentar sua participação no segmento dos veículos médio-grandes (para os padrões brasileiros). Basicamente, havia duas opções: o Ford Taunus fabricado pela Ford alemã, com suspensão traseira independente e motor pequeno e econômico; e o Ford Maverick de origem norte-americana, que vinha sendo vendido nos Estados Unidos desde 1969.
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Tendo como prioridades a urgência e menor necessidade de investimentos, o escolhido foi o Maverick. A intenção era lançar um novo carro, porém aproveitando componentes já disponíveis dentro da própria Ford, como o motor de seis cilindros e 3,0 litros do Aero-Willys, e também a suspensão por eixo rígido e feixe de molas.
Finalmente, em junho de 1973 o novo Ford foi lançado oficialmente no Rio de Janeiro, incluindo um test-drive no Autódromo de Jacarepaguá, nas versões Super e Super Luxo, ambos seis cilindros (V8 oferecido opcionalmente) e o GT, topo de linha, exclusivamente V8. É quase redundante dizer que este último se tornou sonho de consumo instantaneamente, com seus 199 HP´s brutos e aparência ameaçadora. Era um concorrente à altura de Opala seis cilindros e Dodge Charger R/T.
A ideia da matéria foi juntar dois exemplares do vê-oitão com diferentes conceitos: um praticamente original e outro com algumas (malignas) modificações.
Palco: Interlagos. Nosso encontro aconteceu num sábado do Campeonato Paulista de Turismo no Asfalto. Cheguei pela manhã e o Reinaldo já estava lá com o seu Maverick GT V8. Naquele momento ele estava treinando para a corrida. Vida dura a dele, não?!... (NDR: ele é o primeiro à esquerda na foto dos pilotos que ilustra a matéria Históricos V8 - Resgatando uma Era do Automobilismo Brasileiro). Aproveitando o intervalo entre o treino e a corrida, fomos para uma área que fazia parte da pista do autódromo de Interlagos, mas que hoje está desativada.
A relação entre Reinaldo e este Maverick GT 1974 começou em 2007 por influência de seu amigo, Sr. Amilton, que lhe vendeu o carro após tê-lo comprado em 2004 no interior de São Paulo.
O Sr. Amilton havia levado o carro para uma oficina especializada em Itupeva SP em abril de 2007 e em setembro do mesmo ano Reinaldo comprou-o. Na oficina, fez uma revisão completa de motor, suspensão, freios e funilaria. A ideia era mantê-lo original, mas o carro tem seus diferenciais: rodas Magnum de época, pneus 215/65-15, carburador Holley 650 bijet, escapamento dimensionado (são dois 4x1), distribuidor MSD, e mais recentemente, câmbio de 5 marchas do Mustang, modelo Tremec T5 alta performance, comprado e instalado em 2009.
Aliás, a instalação deste câmbio “mudou o carro”, afirma Reinaldo. O escalonamento ficou perfeito para o V8. Rodando a 140 km/h o motor gira a aproximadamente 2800 rpm, Mesmo descontando o erro de velocímetro e contagiros (originais), vê-se que é um câmbio longo, que “casa” direitinho com o alto torque e baixo giro deste motor.
Após fotografá-lo, pude dirigi-lo brevemente. Rapaaaz, que maravilha!
Primeira coisa: esqueçam os carros modernos, plastificados, ergonômicos, silenciosos, eletrônicos, cheios de facilidades elétricas, isoladores, filtrados e quaisquer outros adjetivos característicos dos nossos automóveis do dia-a-dia. Aqui o vocabulário é outro: motor, ronco, borbulhar, direção, carburador, alma, estômago, braço...
E por falar em braço, este não pode faltar na condução do Maverick, e nem é pelo peso da direção, ao contrário, ela é leve, porém muito lenta, cinco voltas de batente a batente. Mas isso se torna apenas um detalhe neste carro fantástico, macio e silencioso. Opa, eu disse silencioso? Sim, mas apenas o suficiente para não chamar a atenção no trânsito. Dentro do carro a história é outra, você escuta o Holley sugando todo o ar à sua volta, os oito cilindros queimando combustível e o carro chacoalhando levemente no ritmo das explosões. Acelere e você sente o carro torcer para o lado, devido ao tamanho do motor.
Saí com o carro sem dificuldades, pois os comandos são leves, a posição de dirigir é boa, permitindo manobrar sem problemas, mesmo com aquele capozão. O câmbio está bem próximo do volante e a mão cai naturalmente sobre a alavanca nas trocas de marchas. Como o asfalto era meio irregular e o trecho curto, não passei da terceira marcha, sem esticar muito, mas me deliciei com o câmbio preciso e de curso curto.
É um carro perfeitamente utilizável no dia-a-dia, e é justamente o que seu dono faz, já que vai de casa para o trabalho regularmente em São Paulo e ainda desce no fim de semana para Santos. Você consegue imaginar a descida e subida da serra neste carro? Deve ser um T...! Para as provas em Interlagos, sempre vem nele. “Carro é feito para usar!”, afirma Reinaldo, provando que lugar de carro antigo parado é no museu. Desde que comprou o Maverick, ele já rodou 8.000 quilômetros, e nunca ficou na mão. Por último, e por bizarra curiosidade minha (nunca faça essa pergunta a um vê-oiteiro!), ele me disse que numa viagem a Curitiba, no trecho entre Santos e Registro, o carro fez 8 km/l, rodando a até 120 km/h, uns 90 km/h de média. Considerando a idade do carro, a força do motor, o prazer de dirigi-lo, acho que está bom.
O outro carro (“a viatura”, como diz seu dono, Lázaro) é um bicho diferente. Pelas fotos, você já vai notar que este está longe da originalidade. Ele tem uma história de quase 20 anos na família, pois foi comprado por Lázaro, em 1992, para o filho Fábio ir à faculdade. É um Super Luxo, 1974, originalmente seis cilindros, que em 1993, ganhou motor, suspensão e direção do GT V8, permanecendo o câmbio como estava.
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Após algum tempo, Fábio quis participar da Arrancada em Interlagos, mas como a preparação e manutenção do carro eram proibitivas, Lázaro comprou um Gol quadrado (clássico das pistas) para o filho. Aliás, este carro pôde ser visto na primeira edição da revista SuperSpeed.
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Lázaro fazia (e ainda faz) parte do Clube do Ford V8 já há algum tempo e começou a mexer no carro. Em 1997, viajou para Miami e comprou um kit com coletor de admissão Edelbrock Performer, carburador Holley 600, bobina Mallory, embreagem completa especial, hélice flexível de sete pás, comando Competition Cams (com tuchos etc) e montou tudo. Mas o motor acabou quebrando.
Depois de mais algumas tentativas, adquiriu um motor na Automotor, preparado pelo Sr. Fernando Batista, que é, na opinião de Lázaro, o melhor preparador de Ford V8 do Brasil. Este motor está montado desde outubro de 2008.
O motor tem entre outros equipamentos: pistões 4,020´, comando especial para até 6800 rpm, balanceiros roletados, coletor de admissão Edelbrock Performer RPM, carburador Holley 600 alterado para 640 cfm, distribuidor eletrônico MSD, módulo de ignição MSD 6A, bobina MSD, cabos de vela 8,8mm, cabeçote de alumínio Edelbrock, válvulas 1,94` e 1,54´, escapamento 8x2 Giba, diferencial 3:31, suspensão recalibrada Impacto, freios a disco na traseira, bomba de óleo Milodon, rodas Mangels Orion 15x7 (frente) e 15x9 (trás), pneus Cooper Cobra 215/60 15 e 265/50 15, juntas de cabeçote Felpro, embreagem Displatec, varetas de cromo-molibdênio, manopla de câmbio Stroker, contagiros Autometer, relógios de pressão de óleo, pressão de combustível, temperatura da água, marcador de combustível Autometer Sportcomp, etc...
Parte dos equipamentos permite ao motor gerar aproximadamente 300 HP´s líquidos. Lázaro ainda pretende colocá-lo no dinamômetro, mas a julgar pelas voltas que já dei no carro, não tenho por que duvidar dessa potência. A outra parte permite administrar a transferência da potência para o asfalto. Bom, existe ainda outra parte, claro: braço rápido e firme, cabeça fresca e pé pesado. Juntando tudo isso, o resultado é muita diversão.
Ligando o carro, já se percebe o comando alto que deixa a marcha-lenta estável, mas pipocando e balançando o carro. O contagiros com shift-light “na cara” já me faz adivinhar que é preciso cuidado com o pé direito, pois o único limitador do motor é o trinômio ouvido-olho-pé-direito. O ronco, aliás, o berro deste motor é inacreditável em alta rotação (palmas pro Giba!). É o motor de rua mais animal que já escutei!
Andando, o carro é mais duro do que o do Reinaldo, pois é rebaixado e com pneus de perfil mais baixo, o câmbio não tem a precisão do outro Maverick , é preciso se acostumar com o curso meio longo da alavanca (se o Lázaro quiser deixar o carro comigo por alguns dias, eu “pego a manha” rápido...). Mas você esquece tudo isso quando está em linha reta e pressiona o acelerador com vontade. A frente do carro fica leve e a impressão é a de que você está ocupando toda a largura do asfalto, com todo mundo te olhando e você ali, pressionado contra o banco, rindo à toa, de olho no contagiros (nem olhei para o velocímetro) e se recusando a levantar o pé!.
Este passeio também durou pouco, até a terceira marcha, mas pude sentir o que conhecimento e competência na montagem podem fazer pelo prazer na direção. Lázaro tem ideia de instalar também um câmbio T5 neste carro, pois o câmbio atual é ideal para tiros curtos, mas ruim de final.
São dois carros excepcionais naquilo em que se propõem. Um para o dia-a-dia, agradável, forte, silencioso; o outro é um animal, excitante e provocador. Qual você prefere? Eu fico com os dois!
Agradeço a Reinaldo e Lázaro pela disponibilidade de tempo e de seus carros, inclusive o de corrida do Reinaldo, que aparece em algumas fotos.
Agradeço também ao Rubens, que esteve comigo neste dia, documentando tudo em fotos e filmagens.
Agradeço também às nossas esposas (minha e do Rubens) pelo “alvará” e pelo café da tarde no fim do nosso “duro dia de trabalho”.
Seguem alguns links sobre Maverick:
http://www.maverick73.com.br : Este site tem muitas informações sobre o modelo, incluindo vários testes e comparativos;
http://www.youtube.com/watch?v=jukDt_tADWQ – Olha como embaralha este motor!
http://www.youtube.com/watch?v=GVVHV9QNR_4 – Batistinha subindo o Pico do Jaraguá. Note como o carro destraciona fácil em segunda; quase no final, ele dá uma encostada leve no barranco.
http://www.youtube.com/watch?v=BZVaew_FbCQ&feature=related – essa é a clássica volta de Emerson Fittipaldi em um Maverick V8 em Interlagos.
Abraço e até a próxima!